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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Espelho


Perdi muito tempo andando em círculos e me desfazendo em pedaços de outros.
Faz tempo que a minha verdade explode em meu espelho
e embaça minha visão.
Depois de despertar na madrugada com os latidos de minha rua,
descubro-me explodindo também em gritos e arroubos de raiva,
Sendo outra. Sendo uma, igual a tantos outros.
Quase manhã, no cheiro da chuva miúda, lembro-me de outra.
Aquela que foi feminina, que explodia de desejos, explodia de ambições.
Sem saída, sem novidades, olhei todos os dias este espelho, sem ao menos me pentear direito.
Vieram os barrancos e sobre mim desabaram, sem me deixar carregar uma folha qualquer.
Sim, tive medos.
Outro dia, tinha um homem no portão a pedir água. Um copo.
Uma água, que eu nem sei se continua a pingar da torneira.
Esse mesmo moço retornou. Queria limpar o jardim.
- Ah, meu jardim está sujo! Limpe! Limpe!
Quero vê-lo todas as manhãs e tardes, e todas as flores
estarão no espelho da varanda.
Não farei coro com a velha ladainha escrita nas liturgias
que rondam minha biografia.
Eu, que preparo poucas coisas boas, além de um bom café.
Sem assombramentos, deixo o espelho lá, onde precisa estar.
Com fé, pode ser que alguma alma ainda possa ser gêmea.
regina vilarinhos- 2017

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