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terça-feira, 24 de junho de 2014

São João


Aproximava-se sempre devagar da fogueira. Sentia o calor no rosto e ia para trás de novo. Tinha medo dos olhos arderem com a fumaça, tinha medo de correr em volta do fogo, como as outras crianças. Os estalos da madeira pareciam seu coração festejando o São João.
Sentia uma alegria interna quando via o calendário mudar o mês e o colégio se enfeitar todo de bandeirinhas coloridas. Os ensaios da quadrilha eram para encher o coração de esperanças, porque ele a tirava como par, todos os anos.
Lindo, moreno, simpático e inteligente. Ela amava Ben-Hur. Podia ter nome mais lindo? Ela se achava feia, chata, sem graça. Mas dançava a quadrilha melhor que ninguém e ele gostava disso.
O dia da Festa de São João chegava. Eles dançavam, riam, comiam doces mil... Era a melhor noite do ano para ela.
Quando ia para casa, via as estrelas perdidas no céu. O frio e o vento estavam sempre juntos de seu rosto. Mas olhava assim mesmo, lá para o alto, e entortava a cabeça. Guardava o vestido caipira, esperando o próximo ano, a próxima dança. Torcendo para Ben-Hur estar sempre ali.
Um dia, ele partiu para outra cidade e os dois nunca mais rodaram o anarriê de São João.
Ficou a música dos balões subindo e enchendo o céu de luzes coloridas.
regina vilarinhos - 2014

domingo, 22 de junho de 2014

Vinha de um sonho feito de pequenas felicidades. Pegava os ventos pelas mãos, colhia pingos de chuva na ponta da língua, deitava os cabelos sobre as nuvens. Certa vez, voou sobre as colinas, apenas para brindar um raio de sol com os pássaros. Sentava-se à beira dos abismos para soprar os dentes-de-leão e vê-los cair no vale. 
Partiu para o alto e levou as pequenas felicidades que lhe deram pelo caminho. 
Não tinha medos. Só tinha o mundo. E ele girava em todos os cantos, dançando junto com os cavalos e peixes.
regina vilarinhos - 2014
Espalhei-me pela Terra,
fiz caminhos de Lua
para me perseguirem.
Os que não me alcançam são 
os tolos, estes que esperam
pela máquina do mundo, 
em estradas e ilhas
perdidas no meio do nada
dentro deles mesmos.
E ficam aí, em devaneios,
na espiral de seus egos.

regina vilarinhos - 2014