sábado, 24 de maio de 2014

Prova

Prova
Tenho um cão que nunca brincou comigo e
tenho um livro que nunca li.
Tenho doces presos nos armários.
Tenho uma panela velha que está
sem tampa e nunca a usei.
Ainda resta um carnê das casas cem,
contando as parcelas do sonho engavetado.
Divido um copo de vinho com a mulher no espelho,
que ri desesperada de mim.
Aqueles que sorriem comigo no porta-retratos
ainda ouvem tangos na radiola.
Resta um sol no papel que nunca
esteve na janela em um dia cinza.
Permanece a vida na busca rigorosa dos esquecidos
comprovantes de que ela foi útil.
Regina Vilarinhos - 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Encontros e navegação

Minha grande cidade do interior permite que se caminhe e se encontre. Ainda.
Nesta cidade, de tamanhos variados e de saudades escondidas nas esquinas, nos becos, nos elevadores e nas salas de espera dos consultórios, é que os encontros sempre se fizeram.
Encontros são o mote da vida.
São os amigos, os filhos dos amigos e aqueles outros amigos e seus filhos, que andaram por tantos lugares e, volta e meia, estão de novo à nossa frente.
Algumas vezes me parece que o que deu nó não foi a gente, foi o tempo. E estamos aqui nos encontrando e desatando um por um, a cada reencontro.
O longe é aquele lugar que não chegamos e o mapa de viagem me foi dado há pouco tempo. Eu, que não sabia ler mapas, estive usando bússolas erradas, deixei o navio à deriva em mar bravo. Retornei ao cais e reencontrei meu leme.
Um canto de sereia ainda teima em soar bem próximo.
É uma chance de navegar.
Mas ainda estou em terra firme, porque existe um encontro que ainda não aconteceu.
Eu espero, porque tenho a alma de poeta fingidor e não é minha esta dor de deixar o barco seguir sozinho.



regina vilarinhos