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quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Vida de Teresa

Vida de Tereza

Aceito tudo. Cara feia de namorado, bronca de pai, amolação de irmão, repreensão de professor, traição de amiga. Tudo, já disse, mas não me chamem de Terezinha de Jesus. Onde minha mãe estava com a cabeça quando me batizou com este nome? Por que não escolheu Joana D´arc, Maria Madalena, Luiza Brunet ou, até mesmo, Sharon Stone? Mas, não. Para pagar promessa, tem que ser do jeito que prometeu.
Depois de oito filhos homens, meu pai mais do que feliz com tanta gente pra trabalhar com os cavalos, ela queria uma menininha. E tanto pediu à Santa Tereza, que eu vim. Aí, Terezinha de Jesus. Enquanto ficasse no Tereza, tudo bem. O nome de todos meus irmãos começa com T: Teodoro, Tiago, Túlio, Tarcísio, Torquato (esse, promessa de meu pai), Tobias, Tomás e Teotônio (nome de meu avô materno). Lindos nomes! Parece time de futebol de salão. Todos com um nome e o sobrenome: Teixeira da Cruz. Aí é que começa minha tristeza (“t” de novo).
Veja bem: Tereza Teixeira da Cruz. Muito lindo! Nome de escritora, pintora, intelectual, economista, como nome de atriz também ficaria maravilhoso. Assim, simples, Tereza, que inspira os mais belos poemas, rimando com beleza, natureza, realeza, esperteza, a dona do pedaço. Minha mãe pagava a promessa e a Santa continuaria a sua proteção à nossa família do mesmo jeito.
- Mas, Esmeralda - dizia meu pai – a menina é tão pequenininha, com um nome imenso desses, vai ser cheia de apelido na escola.
- Por isso mesmo! Promessa é promessa! Resmungava minha mãe. Cê num pagou a sua? Agora é minha vez: Terezinha de Jesus Teixeira da Cruz. Num é pequenininha, então, Terezinha! Quem botá apelido nela, vai se vê comigo.
Pois assim foi feito. Nascida no dia 25 de dezembro de 1987. Dá para saber porque de Jesus, né? Realmente, nasci pequena; acho que já tinha medo da imaginação da minha mãe, de tanto que ela conversava comigo na gravidez. Imagina se eu fosse menino, como é que ela ia me olhar? De onde sairia outro nome com T?! E será que deixaria de acreditar na Santa? Duvido muito que tanta oração e tanta novena não seriam atendidas. Dona Esmeralda chegou a subir as escadarias da igreja de joelhos no dia da padroeira, com meu pai atrás dela para qualquer caso de passar mal, já que estava de 7 meses.
Mas minha mãe não podia imaginar que eu seria tão rebelde por causa de um nome. Ela é que não conhece os rapazes daqui de Imperatriz, no colégio. Quase todo dia tem uma piadinha: “O Terezinha, vai me dar a mão hoje?” “Terezinha, ú ú!” Sem falar daquelas que se dizem amigas e, na hora da paquera, quando a gente já ta quase ficando com o cara, cantam bem alto: “Terezinha de Jesus...”. Minha vontade é de sumir no mundo, ir para a capital, mudar de nome e esquecer Imperatriz e sua padroeira. Só depois dos vinte e um.
Enquanto isso termino, meu curso de teatro amador. O nome artístico ainda não resolvi. Uma amiga me levou ao numerologista para uma consulta. Sabe qual a sugestão que ele me deu: Therezinha Teixeira. Pelo menos, já é uma mudança. Tirou o de Jesus.
v. redonda - 2006

Um comentário:

  1. que delicia, vc tb por aqui!
    adorei seu espaço. tem muta coisa linda e boa.
    vou adicioná-la, ok?

    mil bjs
    ~cintia~

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