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sábado, 18 de julho de 2009

"Por uma FLIP mais free!"

Como falei no post anterior, a FLIP teve de tudo este ano. Até livros e material de divulgação apreendidos. Estou postando aqui o email que recebi do Ovídio, coordenador da OFF, sobre o que aconteceu por lá e a repercussão.

Logo abaixo, o comentário do poeta Chacal.

Caros amigos,


Gostaria de tecer alguns esclarecimentos sobre a minha intervenção e dos demais organizadores da OFF FLIP diante do ato medieval e insano de apreensão de livros em Paraty durante a última FLIP.


1- Na quinta pela manhã (2 de julho), algumas pessoas da nossa equipe foram abordadas por fiscais da prefeitura e da FLIP exigindo que parassem de distribuir material de divulgação que continha parte de nossa programação. Ciente do fato, fui à Casa da Cultura conversar com Bernardete (relações institucionais da FLIP) e assim que a abordei ela recebeu pelo walk-talkie ligação da Casa Azul (organizadora da FLIP) pedindo para falar com alguém da coordenação da OFF FLIP sobre o ocorrido. A pessoa que ligou informou que se tratava de um equívoco e que a OFF FLIP estava “autorizada” a divulgar o material. Respondi que não precisávamos de autorização para fazê-lo e que equívoco era pensar que alguém precisasse de autorização para distribuir material de divulgação literária nas ruas (o que aliás sempre ocorreu durante as edições anteriores da FLIP).


2- Pouco tempo depois, estava na base da OFF FLIP (não temos sede) quando integrantes do coletivo Poesia Maloqueirista (Berimba de Jesus e Pedro Tostes) vieram me procurar para informar que 16 livros deles tinham sido apreendidos por um fiscal da prefeitura. Imediatamente fui procurar por Mauro Munhoz, diretor da Casa Azul, que naquele momento estava em reunião com representantes de comunidades quilombolas, indígenas, caiçaras e artesãos discutindo o encaminhamento da manifestação que ocorreria na cidade. A reunião estava bastante acalorada e disse aos Maloqueiristas que iria conversar com o Mauro assim que a reunião terminasse. Logo em seguida, Alexandre Malachias (escritor e advogado) tirou duas fotos com Pedro Tostes expondo o auto de apreensão medieval (as fotos estão anexas) e se ofereceu para impetrar mandado de segurança contra a prefeitura e ação indenizatória por constrangimento e danos morais, tendo dado aos companheiros do coletivo o seu cartão.


3- Como a reunião se estendia, achei melhor não interromper e chamei uma das pessoas presentes (Bernardete – relações institucionais da FLIP) para conversarmos sobre a apreensão dos livros, ato nunca ocorrido nas edições anteriores da FLIP e sob todos os aspectos inadmissível. Na conversa que tivemos, informei que os Maloqueiristas estavam na programação da OFF FLIP e pedi que fosse passado um rádio para todos os fiscais para que deixassem os nossos autores em paz. Imediatamente ela ligou para Didito Torres (coordenador de produção da FLIP) solicitando que fosse transmitida a informação. O diálogo que se seguiu entre mim e Bernardete teve ares surrealistas: perguntado como os autores da OFF FLIP seriam “identificados”, disse que na verdade qualquer autor tinha a liberdade de divulgar seu trabalho, fosse ou não autor convidado da OFF FLIP, mas se pairasse “alguma dúvida” bastava os fiscais olharem a programação da OFF que ali estariam os nomes dos cerca de 80 autores que reunimos este ano. Ironicamente, adverti que depois que o material havia sido encaminhado à gráfica mais alguns autores ingressaram na programação e os fiscais teriam “dificuldade” de achar o nome deles no nosso jornal. A resposta foi kafkiana: e se fosse colocado um crachá de identificação nos autores? Respondi que Chacal, Plínio Marcos e tantos outros nomes que fizeram e ainda fazem a literatura brasileira nunca usaram crachá ou coisa parecida.


4- Na sexta, final da tarde, corria nas ruas a notícia de que o ato insano fora revogado – o que deve ser atribuído à intervenção conjunta de vários escritores e de várias pessoas identificadas com as liberdades públicas, entre as quais integrantes da coordenação da OFF FLIP. Intercedemos junto à Casa Azul e também junto ao gabinete da prefeitura, além de procurarmos a imprensa nacional denunciando o fato. Em todas as mesas da programação literária da OFF FLIP condenei o ocorrido, inclusive na quinta à noite durante a Conversa de Botequim no Dinho’s Bar, onde estiveram presentes em intervenção musical e poética os Maloqueiristas e também Rodrigo Ciríaco (integrante da Cooperifa que também sofreu apreensão de seus livros).


5- Na sexta de manhã, dei entrevista à Rádio MEC (retransmitida para 11 emissoras) e repudiei o ocorrido, lembrando que a literatura nasceu em torno da fogueira nas sociedades comunitárias e que morrerá no dia em que for afastada das ruas. Ao final da entrevista, sugeri à emissora que fizesse uma matéria com Pedro Tostes, um dos atingidos pela apreensão (a entrevista aconteceu no mesmo dia à tarde).


6- No sábado pela manhã, em entrevista ao Caderno B do Jornal do Brasil, reunimos na mesma mesa o coletivo Poesia Maloqueirista, Laura Bacellar (Editora Malagueta - SP) e Rodrigo Rosp (Não-Editora – RS) para falarmos sobre editoras alternativas, entre as quais o Selo OFF FLIP. O tema da apreensão veio à tona e ao final da entrevista os jornalistas presentes colheram depoimento de Pedro Tostes sobre o ocorrido. A Casa Azul e a prefeitura foram consultadas para oferecer a sua versão e a matéria foi publicada no dia 7 de julho. Na matéria citada, a responsabilidade pela apreensão dos livros foi atribuída ao Iphan. Triste pátria a nossa onde a presença de poetas mangueando livros na rua agride o patrimônio histórico. Os curumins pedindo esmola no centro histórico é coisa que não incomoda – estão perfeitamente integrados à paisagem e ninguém se importa com eles. São como os camponeses de Juan Rulfo ignorados pelo olhar dos latifundiários.


A OFF FLIP segue sendo um desdobramento necessário da própria FLIP e sobretudo um evento paralelo, alternativo, independente e complementar em relação à festa literária internacional. Nos últimos anos, reunimos centenas de escritores em nossa programação literária, além de termos criado um prêmio literário e um selo editorial, sem falar que este ano iniciamos um programa de bolsas de criação literária em parceria com a FLIPORTO. Isso a OFF FLIP vem fazendo com uma equipe pequena e em meio a dificuldades de toda sorte, sem perder a sua marca de origem ligada às manifestações culturais locais e acolhendo manifestações artísticas de todo o Brasil e também do exterior.

Um abraço a todos,

Ovídio Poli Junior
escritor, editor do Selo OFF FLIP,
organizador da programação literária da OFF FLIP,
coordenador do Prêmio OFF FLIP de Literatura


Texto de Chacal:

polêmica prolifera entre o over e o underground em confronto em Paraty. Esse ano não fui. Tinha mais o que fazer. Mas devo reconhecer que a FLIP é um achado. Num país de poucas letras, o sucesso desta festa é um glorioso mistério a ser reconhecido. E com a cidade colonial cheia de "amantes da literatura", a rapaziada também quer tirar sua onda e vender seu peixe. Nada mais justo. Eu que já vivi os dois lados da moeda, acho que uma das melhores coisas da FLIP é encontrar bicho de pena, seja ele pavão, albatroz ou galo de briga. Acontece que esse ano, a direção da FLIP resolveu reprimir a rapaziada, que batalha para fazer seu livro e lá vender para se tornar famoso e ficar riquíssimo ou apenas para pagar a viagem. Isso se chama reserva de mercado ou, quem sabe lá, excesso de assepsia social. Para não dizer limpeza étnica porque proibiram também as comunidades indígenas e quilombolas de vender seu artesanato, de um colorido humano magnífico. Essa feira, esse bazar de tantas almas é que faz a festa ficar boa. Mas a direção da FLIP quer que aqueles consumidores de qualquer coisa que a mídia indique, seja só dela e de mais ninguém. Se insistirem em boicotar e reprimir nossos funâmbulos, nossos líricos delirantes, os baluartes da literarrua, a FLIP se tornará um jogo de cartas marcadas, fabricada pelas editoras e pela mídia para gáudio da burguesia imperial engalanada e da triste academia beletrista. Imagino que desse jeito, em breve para entrar na cidade, durante a FLIP, teremos que pagar ingresso e passar por uma revista digna de aeroporto americano. Mas isso não dará o resultado esperado. Paraty é terra de pirata que dá um papagaio pra não entrar numa briga. E uma cáfila para invadir sua praia. Por uma Flip mais free. Falei e fui.


Pois é, na noite de quinta, também no Bar do Dinho, eu também registrei minha indignação pelos fatos, pois somos uma democracia ou não?
Vi uma Parati diferente de todos os anos que já fui lá.

Ainda tenho mais pra contar. A magia, às vezes, falha.

regina vilarinhos

Um comentário:

  1. dá uma passadinha em http://oglobo.globo.com/online/blogs/paralelos/ e leia o texto "FLIP: cartéis hoteleiros e gripe suína".

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