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terça-feira, 23 de outubro de 2007

Um Colombo sul-americano

"Há trinta anos. Trinta. Me senti um Colombo sul-americano chegando a um país fascinante, meus olhos se enchiam da exuberância das paisagens, das frutas, do tamanho, da diversidade e do contraste enormes. Argentino do interior, da terra da carne, do vinho e da neve de junho ao pé dos Andes, eu via deslumbrado os caminhos que me traziam a Volta Redonda, a de julho de 77. Passeando pela calçada da rua Trinta e Três fui até a rua sessenta com meu guia, hoje perdido de mim nos caminhos da vida...
Contornamos pela igreja de Santa Cecília, o morro do Rosário, a calçada do Macedo (em que, no ano seguinte, eu trabalharia no meu primeiro emprego em terras do Brasil). E, na virada da esquina, ali, estava ele: esse monumento estranho para mim, fruto da fartura de um tempo há muito ido. Parte de um expoente que deixou saudades, de um tempo em que tudo girava em torno da mãe de fumaça e fogo que a todos seduzia, em todos embalava o sonho do emprego para sempre.
Quando perguntei o que era esse complexo, o amigo me disse, não sem uma pitada de despeito (ele não era daqui: "-Recreio do Trabalhador-".
Na época, o vi como uma figura inalcançável, como era uma instituição estatal para um estrangeiro. O trabalhador encontrava ali o lado social de suas relações, torneios de todos os esportes, festas, shows... tudo! Tudo tinha lá, campeonatos internos de futebol que provocavam febre nas pessoas, em seu sagrado direito de torcer. A família metalúrgica para lá convergia, às vezes iam somente para se verem. Quantos casais se conheceram lá e hoje têm netos? Guardo lembranças do que eu conheci sem ter participado, saudades de um tempo que não vivenciei, da minha história que correu sempre paralela à do Recreio, como dois trilhos que se juntam, quem sabe, no horizonte?
Como é diferente hoje! Me parece mudo, sem barulho de vida, em suas formas calado e abúlico na distância entre seu tempo e as gentes de hoje. Se, ao menos, você tivesse se tornado apenas velho, Recreio, eu aceitaria como aceito meus anos, mas como eu te remembro... prefiro teu passado, prefiro te ver como você foi e não como você poderia ter sido e não é mais.
Recreio do Trabalhador. Você é um canto de vozes que o tempo engole e, aos poucos, se torna vento..."

José Antonio Toral

Este texto eu recebi como comentário e meu amigo autorizou colocá-lo na página principal do site. Emocionante! Preciosa lembrança, que eu não imaginava causar a um "estrageniro". Obrigada Toral pelo carinho, obrigada aos amigos pelos comentários e pela leitura.

Um comentário:

  1. Correria total, Todavia Coloquei teu banner no meu Blog!!

    Ósculos e Bons Fluidos

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