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segunda-feira, 7 de março de 2016

As casas conversam 2


Fui conhecer o canto forte do vento quando morei à beira-mar, na Praia da Costa, em Vila Velha. Meados dos anos 80, era jovem e fazia pré-vestibular. De dia, eu ouvia as ondas conversando com a areia. O apartamento era no décimo terceiro andar, janelas grandes, de correr, esquadrias de madeira. Elas batiam muito quando vinha o vento sul. Esse é o vento da chuva, que muda o tempo no litoral. Tinha medo, no começo, era um uivo forte, principalmente à noite. Dormia sozinha em meu quarto, cuidava de colocar papéis nos batentes, para não ouvir a conversa do vento com as janelas e as portas. Mas ouvia. Em alto mar, ele soprava mais ato, e falava com as sereias, com os marinheiros, com os pescadores e com os peixes. Sempre que virava o vento sul, eu sabia que teria uma longa noite.
Eu ouvia. Posso ouvir ainda. Acho que eram Netuno e Yemanjá trocando juras de amor.
O vento habita minha memória.


regina vilarinhos - 2016

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