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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Palavras na manhã fria


As palavras foram colocadas lado a lado
friamente, naquela manhã,
e foram perdendo o sentido e
doçura que tiveram antes.
Os nomes das coisas, as luzes das coisas,
os dentes das coisas,
as orelhas das coisas
todas que sempre tiveram lar
ficaram permanentes
na natureza morta que estava na parede
e sobre a mesa de centro.
Não, um café não estava pronto
nem cheirava na cozinha o seu dia
amanhecendo.
O leite e o pão deixei para trás e
ainda ouvi os passos do leiteiro correndo pela
varanda, tonto e tropeçando no jornal caído na porta.
Pobre manhã a dele e a minha.
Um apito longe daquela usina longe
lembrou que a vida continuava do outro lado
da cidade, da porta, do jardim, do outro lado da neblina.
As horas riam loucamente do meu rosto no espelho,
as vozes da noite arranhando a parede do banheiro,
irritando a lembrança,
doendo o cinza na alma.

regina vilarinhos

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