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terça-feira, 5 de agosto de 2008

De portas abertas para a poesia

De portas abertas para a poesia

‘A Chave e a Senha’, de Regina Vilarinhos, reúne poemas sinceros
e cativantes de uma maneira simples; nem por isso, clichês


Cláudio Alcântara

Certa vez uma de minhas entrevistadas me disse: “Gosto quando você escreve as matérias sobre meus trabalhos, seu texto é jornalístico mas há poesia também no que você escreve”. Não tenho essa pretensão, apenas escrevo o que salta de dentro de mim. Não há como segurar. Simplesmente, e naturalmente, as palavras vão ganhando forma. Outro dia também, uma colega de profissão perguntou se eu “nunca tenho ‘branco’ na hora de começar a escrever uma matéria”, o que de vez em quando acontece com ela. Sinceramente, não. E, talvez, um dos motivos seja o fato de que cresci lendo poemas. A poesia me conquistou cedo e nos tornamos amigos logo de cara. Jornalismo nada tem a ver com poesia, eu sei disso. Mas se é que consigo, de alguma forma, tornar meus textos um tantinho diferentes, devo isso aos poetas. A todos eles.

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Poetas como a gaúcha criada em Volta Redonda, que me presenteou com um de seus “livrinhos”: “A Chave e a Senha - Porção de Poesias de Regina Vilarinhos”. E na dedicatória escreveu assim: “Poesia é abraço na alma!”. Bonito isso.

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Gosto de gostar de poemas dos mais variados. E, às vezes, gosto igualmente de poetas que por um motivo ou outro deixaram de se gostar. Também cultivo o gosto de admirar, e valorizar (e também criticar, quando não gosto), os talentos locais.

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Já entrevistei Fernanda Montenegro e Irene Ravache. Da mesma forma, Claudia Leite e Rita Lee. Profissionalmente, também Martha Rocha e Ed Motta... Assim como os nossos Paulo Rangel e Joca Ottoni. Rodrigo Hallvys e Elisa Carvalho. E tantos e tantos outros. O que quero dizer com isso? Que a vida é como poesia: existem variáveis, mas a essência é a mesma.

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É a essência de Regina que consegui tocar ao ler “A Chave e a Senha”. Ela abre o livreto com verdade banhada em singeleza: “Quando você quebrar seu gelo interior, refresque quem está à sua volta. Poesia, por exemplo”. E é de poesia que me alimentei durante os minutos em que escancarei minhas portas para o que a poetisa tinha a dividir. Em “Pedido”, por exemplo, eu me vi apaixonado. “Fica comigo / Cuidarei das orquídeas, das rosas e do jasmim, / enfeitando o centro do teu peito”.

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Os poemas de Regina têm o dom de nos mostrar aquilo que somos. E de nos entender melhor. São sinceros, como sinceros são os olhares infantis. E cativantes de uma maneira simples. Ela escreveu em “Ausência”: “Estou fraca de mim / busco o meu nos outros. / Perdi o jeito de versos, / ganhei um jeito de blues”.

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Com a poesia aprendi que não, necessariamente, preciso ter a mesma maneira de gostar das outras pessoas. Aquilo que não me toca como arte pode muito bem representar o ideal de Regina, de Luciene Martes, de Picasso, de Neruda... “Quando escolho ter asas, é para poder viajar mais alto e longe, e sentir que posso ter o vento como companhia. O mar visto de cima me emociona”, é o que ela tem a dizer em “Quando Escolho Ter Asas”. Uma escolha difícil, mas necessária.

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Terminado o livro de Regina, eu me senti como um de seus poemas, o “Poeminha de Outono”, que diz assim: “Eu me sinto poeta marrom, / Meus versos caindo de mim como folhas secas. / Em cada pedaço de rima, / Uma infinidade de mim se espalhando no papel. / Beijos feridos que queriam tocar teus lábios / E te encontravam cinza. / Qual a cor que você pode me dar hoje? / Fosse amarelo para minhas cantigas de desejo / Ou vermelho para meus sonetos de amor”.

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Ela tem a chave para quem está trancado por dentro. É só querer abrir."


Coluna publicada na página 4, no caderno "Lazer e & cia", do jornal Diario do Vale, de 05/08/2008.

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