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quarta-feira, 21 de março de 2012

No caminho da poesia

Quando eu tinha 14 anos, eu conheci este livro:

Classificados Poéticos - Roseana Murray




E já tinha aulas de Português com este Mestre:
O professor Santini.

Ele provocava em seus alunos a leitura crítica, aguçada, e fazíamos jograis na escola, o Colégio Macedo Soares. Eram textos para decorar, interpretar e apresentar em noite de gala no auditório do colégio, diante de uma multidão. Pelo menos para mim era uma multidão.
Um dos poemas que apresentamos e que me marcou foi este aqui:


O Homem; As Viagens
O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.
O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.
 E eu falei ele todinho uma certa vez.

Então, para mim, além de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius, Olavo Bilac, Cecília Meireles, esses dois aí de cima são co-responsáveis pela minha ida pelo caminho dos versos e da literatura. Roseana pela simplicidade com que usa as palavras; Santini, pelo empenho em me fazer uma pessoa melhor, através do uso da Língua Portuguesa e seus códigos. 
Isso me fez acreditar na poesia.

O ar que eu respiro

Eu quero fazer valer o ar que eu respiro.
Por isso vou ser sempre essa
que solta o ar dos pulmões, da garganta,
que sangra o próprio coração,
que não engole o choro,
que corre à frente de qualquer dano,
que acorda de ressaca da própria alegria,
que não finge o aperto do calo
e nem o amor pelo verso.

Regina Vilarinhos



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