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sábado, 12 de maio de 2012

MUDA

Muda

Nos olhos os desejos partiam
de velas abertas.
E em teus braços ouvi sereias.

Palavras voavam em meu corpo.
O sal cortava nossos sonhos.
O grande furacão me expulsou de teu barco.
Você procurou o maior esconderijo e
usou o meu álibi
e abriu o mar.

Os dedos desenharam na areia
nossas pernas, entrelaçadas.
Ouço ainda na concha os sussurros,
os suplícios e o alívio.

Tudo o que você não deixou ficar
o mar fez questão de levar.
E eu sobrevivo.

Herdo de você esta solidão.

regina vilarinhos

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Ataque

No canto do galo, tomaram a rua,
mochilas pesadas, cabeças em brasa,
o que pesava era a alma,
o peito, descompassava.

Sumiram na neblina, cinco para o norte,
seis para o sul, dois no leste.
No comando, de dentro da van,
o mais forte.

Lá no campanário, pronto.
Também na torre, no alto do morro,
faltavam dois.

Porteiro abriu o prédio.
Roleta, elevador, hall,
janela.

Mochilas abertas.

Elas voavam, muitas,
milhares delas, caiam
sobre as árvores, nos outros prédios,
sobre as cabeças.

De todas as cores, tamanhos
e leves,
elas, as poesias.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Até logo, companheiros!

ATÉ LOGO COMPANHEIROS
Brasil Lul Diogo

Passos largos
nas botinas operárias
levando fortes braços
para a dura produção
- na testa a confiança na luta –
lá vão eles,
lá vão eles para dentro da usina.

Qual é o turno,
qual é o turno,
qual é o turno?
Um é das oito,
outro das quatro,
e um ainda da zero
hora da manhã,
do amanhã que não veio mas que um dia virá.

Oito horas depois todos saem,
para a rua, para casa.

Ontem três entraram
mas não saíram.
Dobraram? Não. Tombaram.
Já vi sangue em cima dos trilhos
de aço que o obreiro forjou.
Já vi operário partido nos trilhos.
Mas agora, o que vejo?
Vejo operários morrendo
na forja do aço que é seu.
Amanhã, os das oito,
das quatro e da zero
hora de outro amanhã,
forjarão trilhos com sangue,
mais minério que vem de Minas
e o carvão que vem do sul,
com nova consciência de luta.

Já vi meus irmãos morrerem de fome,
por falta de emprego.
Mas agora, o que vejo?
Vejo patrícios morrerem no emprego,
das balas covardes
que o povo pagou.
Até já, companheiros!
Junto aos teus órfãos e viúvas
aqui ficaremos,
mas sem silêncio,
sem silêncio.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Coração

Explodiu dentro do peito
sem tiro ou facada
ferido, arrebentado.

Sangrou, de escorrer na calçada
sujando tudo,
o malvado.

regina vilarinhos

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

ÁRVORE POEMA

Rimas e raízes
flores e versos,
sombreiam a alma em seu quintal.
Descansa poesia,
da catarse matinal.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Olhos cheios d´água

Olhos cheios d´água

Esse jeito da gente olhar para o outro e querer que se enxergue as palavras.
E eu queria um dia dizer para todos palavras tão simples,
que não precisassem ser apagadas e reescritas,
pois todas as partes que me conhecem,
todas as partes que me prendem,
em cada um dos meus amigos,
são feitas de simplicidade.
De qualquer lugar onde pudessem me ver e ouvir,
saberiam que elas me anunciavam.
Meu primeiro ai, saindo da dor que não explico,
sobre a vontade que tenho de cuidar de cada um de meus amores.
Todo os meus "até logo" precisavam ser "não se vá".
Nenhum deles nunca couberam dentro de minha mão,
mas sempre estiveram lá.
Nem sempre me deram razão, mas sempre me acharam razoável.
De tudo o que soubesse dizer, nada poderia sair por completo antes de minha boca completar a fala.
O prato que servi, a comida que fiz, não tem sabor de ver que guardo nos meus olhos.
Ver foto de Elvis, ouvir mpb, assistir um filme de amor,
pensar nas melhores amigas, dormir com a filha,
tomar chopp, sorvete,
sentir o vento no rosto, fazer o café,
viajar em boa companhia
e lembrar de não esquecer a chuva no telhado,
me fazendo crer que estou em Passa Quatro.
Se fosse só saudade seria fácil explicar,
mas nem de amor é bom falar,
porque fica perdida a metafísica do jeito
mais que de ser poeta, mas de querer ser perfeito.

regina vilarinhos

sábado, 16 de abril de 2011

Perplexidade

PERPLEXIDADE

O que dói descompassadamente,
o que ondula e te transpassa
por toda a existência da noite,
por toda a permanência do vento,
de teu desalento
ninguém te salva.

Perdida a tua simplicidade, de onde sorrirás?
Perdida a tua sensibilidade, onde permanecerás?

Nessa labareda infinita no peito
sofre, descompassada, a mente.
E perdeste a árvore crescendo
perdeste o sol nascendo.

Do nome completo de crianças,
Do nome completo de algozes
Do nome e da essência completa de
Mães. Das mães, a mão ao piano.

Anoitecerá,
amanhecerá,
entardecerá;
por do sol será...

“Como o sol doura as casas dos réprobros!
Poderei odiá-los sem desfazer no sol?” Álvaro de Campos


regina vilarinhos

sábado, 9 de abril de 2011

Bebida

Dose dupla, com gelo
que é pra refrescar a garganta
e
a alma.

Mais uma, mais uma.
Bebo e esqueço;
Bebo porque mereço; bebo.

Um porre de fazer gosto.

Coragem.
Que é preciso,
pra seguir viagem.

regina vilarinhos

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia

Cura Poesia

Regina Vilarinhos

Poesia pra mim é cura. Não para doença ou vício.
Pode ser na palavra escrita, na música ouvida, na foto revelada ou na dança valsada.
Sinto, toco, caminho poesia todos os dias, por entre minha rua, entre os prédios e seus jardins. Vejo poesia na placa do carro dos amores que vem e vão, nos olhos brilhantes de meus pais, na cama forrada com limpos lençóis.
Bato com poesia na cara quando o vento fecha a porta,
dói poesia nos joelhos quando caio no chão.
Como poesia com café com pão, feijão com arroz,
com coca gelada, na mesa para dois.
Vinho poesia, cervejo poesia, choro poesia, grito poesia.
Roupa lavada com poesia.
Amaciante, pregador, varal e passada a ferro, a poesia.
Em rio de poesia, nado de costas.
Em dia de poesia, ofusco os olhos no sol.
Poesia em pedra dura,
poesia-me com quem andas,
mais vale duas poesias nas mãos...
Aliás, é um tratamento, que nem sei se termina, mas que me alivia.

sábado, 22 de janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dentro

Dentro

Viver, e conviver com a dor.
E preparar o caminho
e se perder no moinho
e saborear o prazer,
de se descobrir inteira,
muito antes do final de tudo.
Nada acabou, nem começou.

Apenas eu, que continuo.
Viver é conviver com a dor.

Regina Vilarinhos

sexta-feira, 27 de agosto de 2010


VERBO DE LIGAÇÃO


Passado

Fui Quintana.
Estive de bombachas.
Fiquei verão.
Permaneci Guaíba.

Presente

Sou cinza.
Estou poeta.
Fico urbana.
Permaneço Paraíba.

Futuro


Ser poeta.
Estar marujo.
Ficar maresia.
Permanecer Paraty.

Desejo

Fui gaúcha,
sou papagoiaba,
fiquei mineira
estarei caiçara.

regina vilarinhos

domingo, 14 de março de 2010

Dia Nacional da Poesia

Eu deixar uma poesia aqui, mas achei que a Leonor Vieira faaz isso muito bem. Leiam e sintam em http://lv-motta.zip.net/index.html.

Abraços e paz
regina vilarinhos

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Tempestade



Essa água que te desaloja,
essa terra que te expulsa,
esse teto que te desaba,
essa rua que te inunda,
esse rio que te invade,
esse trovão que te assombra,
essa torrente que te prende,
esse volume que te afoga,
essa falta que te medra,
esse vazio que te enche
o nada que te resta
.

regina vilarinhos

foto:Flavio Neves - desabrigados

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Sente

Queima, bate, engasga. Corrói, debate, rasga, dói, anula.

Dentro, fora, em cima, do lado, do outro,deitado, em pé. Engatinhando, sentado, pulando, arrastando. Atrás, na frente, de frente e de lado.

Com fome, com enjôo, com sede, de barriga cheia. Ardendo em febre, curado, resfriado, de dieta, com barriga tanquinho. Na foto de photoshop, preto e branco, colorida.

No braço, cabeça, na mão, peito, perna, dedão do pé. Na boca, bexiga, coração. Estômago, nariz, olho.

Sem motivo, com motivo, na chegada, na partida, no amor, no ódio, quando nasce, quando morre.

De dia, de tarde, madrugada, noite alta, com calor, com neve, primavera, lua cheia.
Lua minguante. Na cheia, na vazante, maré alta, pororoca.

No Natal, na Páscoa, Carnaval, finados, dia santo, segunda-feira. Nas férias, em aula, reunião, desfile de moda. Pelado, vestido, biquíni, uniforme, de meia.

Dor.

regina vilarinhos

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Festival

Ter-te boca a boca
faz de mim
uma ciranda
sentir-te braço a braço
dança em mim
um tango
ninar-te
sonho a sonho
doma em mim
um rock.
Aqui em casa
tem a roda,
a rosa
e a guitarra.

regina vilarinhos

terça-feira, 28 de julho de 2009

Silêncio

I - Da voz

Quebrei a voz no portal da tua boca.
Engoli vento.
Sangue, logo depois.

Deus, que dia eu posso ir buscar
a palavra de volta?
o ar, de volta?
a veia, de volta?

Por motivos alheios,
tua liga não foi atendida.
Por favor, tente mais,
tente tarde,
tecle 1, tecle 2...
tecle asterisco.

II - Da boca

Ela vem grande e come,
engole e cospe.
Nada, nenhuma palavra
mata a sua fome.

III - Do ar

Luzes, bússola, mapa,
danger: melhor não pisar!
Sufocar você
me dá falta de ar!


regina vilarinhos

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Chão

Coloquei meus pés sobre as
palavras, e a cada uma delas
que catas, são meus pulos, meus ais,
que de mim
levas.



regina vilarinhos

terça-feira, 19 de maio de 2009

Poema em Defesa da Alegria




Do poeta uruguaio Mario Benedetti, falecido domingo, aos 88 anos. Recebi por email da poetisa Leonor Vieira-Motta:



DEFENSA DE LA ALEGRÍA


Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias y las definitivas

defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias y los graves diagnósticos

defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos

de las endemias y las academias
defender la alegría como un destino
del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas

de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres
defender la alegría como una certeza< br />defenderla del óxido y la roña

de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa
defender la alegría como un derecho

defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas del azar
y también de la alegría

Mario Benedetti



Mais do poeta, com seus haikais em http://www.germinaliteratura.com.br/mbenedetti.htm.