Ela sempre gostou de meninos. Meninos que podem ficar sujos e a mãe achar normal, meninos que ficam sentados à frente da TV e ninguém pede pra estender a roupa, apagar o feijão, "atende a campainha!". Ela queria ser menino assim. Ela só queria entender porque ela e não ele. Lucas nem sabia o preço do nescau, porque era ela quem comprava quando acabava. Bendito apartamento no terceiro andar, fresquinho, mas sem elevador.
Manú:
- Só isso, mãe?
- Se eu me lembrar, te ligo no celular.
Na calçada, era a hora de se entregar às idéias mais loucas. Ia direto na padaria, pra sentir mais rápido o cheiro de pão doce com côco. As bandejas de pães estão tão à vontade que parece que tudo é de graça. Ah, nada como roubar um sonhozinho. Só de vez em quando. A última vez que fez isso, sorriu sorrateiramente para seu irmão, que resolvera ir junto por causa de uma revista de surf pra comprar no Léo. Ele dava de ombros. Quando chegava na banca, deixava-o à solta com as revistas e ficava vendo a rua com suas gentes esquisitas. Os carros, os loucos que dirigem carros.
A sua Kombi estava bem diante de seus olhos, como ontem. Só não entendia aquele cara com o jornal na cara, parado na porta do outro prédio. Será que a Kombi é dele? Vai vender? Era exatamente o que ela e as amigas estavam querendo, vermelha e branca, 74, com aquele farolzão.
Pensou em perguntar ao Léo de quem era, mas o Lucas, mais uma vez puxando o boné (ela adorava se esconder nele), e querendo que ela entendesse que o skate é sua alternativa para o surf.
- Ainda vamos ter uma casa na praia e, até lá, eu saberei tudo sobre ondas. Já imaginou, Manú? Seu brother na prancha e você pegando geral na areia?
- Qual seu “brema”? Que areia, que onda? Vai pra casa, leva seu nescau. A mãe tem que ir pro trabalho e já tô voltando.
- Ih, pirou... você ficou colada nessa Kombi, hein? Fui!
Ele via a cena, saia de seu posto de todos os dias e entrava na sapataria pra disfarçar. Ela chegava perto da Kombi, olhava pelo vidro do motorista, na janela de trás, voltava, se abaixava... Pegava o celular, fotografava. Ele queria saber o que ela queria com um carro velho daqueles. Deve ser do jornaleiro e ela fica falando com ele sobre isso.
Lá vai Manú, entrando de volta no prédio, com o fone no ouvido. Ele volta para a calçada. Léo vê tudo.
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Coisinhas simples
Praticamente todos os dias ele esperava na porta do prédio. Quatro horas, passava na banca e pedia o "Extra". O Léo já deixava guardado pra ele. Atravessava a rua, parava do outro lado pra vigiar.
Só queria ver os dois saindo, mochila nas costas. O fone no ouvido deixava Manú distraída, o skate e o boné a faziam ficar cada vez mais parecida com Lucas. Ele puxava o boné de volta e a revelava, com seus cabelões castanhos.
Ele nem queria chegar perto. Tá certo que Belém é longe, sair do Galeão pra pegar a Linha Vermelha é um saco, subir a Serra pior ainda. Mas esperar 6 anos para tomar uma atitude é muito. Depois de ver os olhos negros de Manú nas fotos, é que tomou coragem de vir. Queria saber como era sua voz, como o Lucas batia a porta do carro, como era acordar e pegá-lo roubando a geladeira.
Sem chance. Enquanto durassem suas férias era só isso que iria fazer. E sentia-se feliz de vê-los assim.
regina vilarinhos
Só queria ver os dois saindo, mochila nas costas. O fone no ouvido deixava Manú distraída, o skate e o boné a faziam ficar cada vez mais parecida com Lucas. Ele puxava o boné de volta e a revelava, com seus cabelões castanhos.
Ele nem queria chegar perto. Tá certo que Belém é longe, sair do Galeão pra pegar a Linha Vermelha é um saco, subir a Serra pior ainda. Mas esperar 6 anos para tomar uma atitude é muito. Depois de ver os olhos negros de Manú nas fotos, é que tomou coragem de vir. Queria saber como era sua voz, como o Lucas batia a porta do carro, como era acordar e pegá-lo roubando a geladeira.
Sem chance. Enquanto durassem suas férias era só isso que iria fazer. E sentia-se feliz de vê-los assim.
regina vilarinhos
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Separados
Era muito fácil perceber que o vinho de ontem ia ter gosto de adeus.
Eu é que quis que a taça derramasse em você. Pode brigar, eu sei que faço esse jogo mesmo. Sou, ou tento ser, aquela que planeja tudo. Você chega e finje não perceber nada. Você está cansado disso, eu sei. Eu também. Porque todas as manhãs que me deixei acordar ao seu lado precisavam ser pefeitas? A paisagem lá fora, o vento entrando de mansinho, o cheiro de erva-doce, o gosto de lábios, tudo tinha que estar no lugar certo. Mas, aí, vem o lençol e marca a minha pele, o meu cabelo fica do lado errado, minha irmã liga cedo demais e você se lembra da promessa de levar seu pai à missa.
Não teremos mais domingos...
Pode pegar seu livro do Carpinejar, "Canalha!", combina bem com você. Não vai ter mais nada mesmo na estante para você vir buscar. Só agora entendi porque me pedia uma "bolsinha de mercado, amor!" todas as vezes que voltava pra sua casa.
Os dias em Penedo vão virar digitais numa pasta qualquer no computador. Enquanto não me der vontade de deletar. Já mudei a senha no blog, não tem como você continuar postando como se fosse eu.
Minha vingança será ver você tomando café no bar, segunda-feira, correndo para abrir o ponto, com a gola da camisa amassada.
regina vilarinhos
Eu é que quis que a taça derramasse em você. Pode brigar, eu sei que faço esse jogo mesmo. Sou, ou tento ser, aquela que planeja tudo. Você chega e finje não perceber nada. Você está cansado disso, eu sei. Eu também. Porque todas as manhãs que me deixei acordar ao seu lado precisavam ser pefeitas? A paisagem lá fora, o vento entrando de mansinho, o cheiro de erva-doce, o gosto de lábios, tudo tinha que estar no lugar certo. Mas, aí, vem o lençol e marca a minha pele, o meu cabelo fica do lado errado, minha irmã liga cedo demais e você se lembra da promessa de levar seu pai à missa.
Não teremos mais domingos...
Pode pegar seu livro do Carpinejar, "Canalha!", combina bem com você. Não vai ter mais nada mesmo na estante para você vir buscar. Só agora entendi porque me pedia uma "bolsinha de mercado, amor!" todas as vezes que voltava pra sua casa.
Os dias em Penedo vão virar digitais numa pasta qualquer no computador. Enquanto não me der vontade de deletar. Já mudei a senha no blog, não tem como você continuar postando como se fosse eu.
Minha vingança será ver você tomando café no bar, segunda-feira, correndo para abrir o ponto, com a gola da camisa amassada.
regina vilarinhos
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P O E S I A Para a bendita, dita e escrita, na alma, na voz e em mãos de hora, de ontem e para os amanhãs, torneadas em longas curvas...