quarta-feira, 22 de março de 2017

Taboa

Devagarinho, no caminho para Angra e Muriqui. A Rural cheia de família, de boias, bolas.
Banho de rio, cheiro de mato, carro sujo.
- Menino, volta pra cá!
- Vou pegar taboa, mãe!
Fui lá. Na estradinha da memória, agora mesmo.
Voltei com o cheiro da maresia e com areia nos cabelos.
Exercícios de felicidade
Identificar
este mundo
depois do arco-íris
e antes da 
próxima tempestade.
Eu tento.
Com fome, mas não é no estômago. É na alma. Meu alimento: liberdade.

Perdão

Porque o mundo em que eu estava
há alguns anos atrás
me fazia pensar que esperar era a melhor estratégia.
Porque os lábios que beijaram,
tempos atrás,
a boca que me beijava
queriam congelar teu sabor.
Porque os momentos não voltam.
Porque o café forte sempre
esteve na xícara.
Porque os poemas eram outros
porque a poesia dava apenas
bom dia.
Porque a casa não te abrigava.
Porque a tolice de alguns anos atrás
deixou a paixão na hora errada.
Porque agora o abraço faz
falta, faz volta.
Porque o tempo, agora,
falta e não volta.
Porque a ausência não
solta as tuas asas.
Porque Marte te manda
pra mim.
Porque Leão
sabe onde Aquário
se ajeita, se deita,
e se torna amor.
Existe um lugar onde a alma já visitou, uma janela para uma luz diferente dessa que ficou.
Uma saudade do que sonhei e ainda não está aqui. De noite ou de dia, esses espaços vão sendo preenchidos com pequenas alegrias. Talvez, lá na frente, um sorriso novo possa fazer parte da imagem que está no espelho, tortamente refletida.
Tirar do sonho e trazer para a vida essa imagem, é a missão.

Outono

Sempre gostei do outono. Sou de Aquário, nasci em pleno verão de Porto Alegre, mas sou do outono.
Minhas viagens à passeio são escolhidas para lugares de campo, serra. Quase nunca vou às praias. Gosto de mar, mas a montanha e as cachoeiras são a minha paixão.
Eu sinto gosto de outono no meu café de todo dia. As lembranças da adolescência e juventude são da casa cheia no outono. Até mesmo para escrever, me sinto mais inspirada depois do verão. Não é amargura, nem melancolia. É um prazer pelos cheiros, ventos e sorrisos que ficam diferentes nesta estação.
"As manhãs de outono me fazem lembrar de um tempo que minha mãe sentava ao sol, no quintal, catando feijão ou arroz, e eu ficava ao seu redor, para aproveitar o calor dos dois. Às vezes, fazia tricô ou crochê." Isto escrevi em outra crônica, há anos atrás.
E porque foi tão quente último verão, porque tivemos tantos fatos pavorosos e bárbaros nos alimentando o estresse diário, porque somos tão pequenos diante de tantas injustiças, é que desejo para nós uma estação doce, fresca, lutando juntos pela vida que merece respeito em todas as circunstâncias.
Não deixar de ver a realidade, mas conspirar a favor da mudança dela. Não reclame das folhas caindo no quintal e nas ruas. Sinta o perfume que exalam ao serem juntadas para secar.
Porque elas nos deixam entender o que ficou para trás.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Espelho


Perdi muito tempo andando em círculos e me desfazendo em pedaços de outros.
Faz tempo que a minha verdade explode em meu espelho
e embaça minha visão.
Depois de despertar na madrugada com os latidos de minha rua,
descubro-me explodindo também em gritos e arroubos de raiva,
Sendo outra. Sendo uma, igual a tantos outros.
Quase manhã, no cheiro da chuva miúda, lembro-me de outra.
Aquela que foi feminina, que explodia de desejos, explodia de ambições.
Sem saída, sem novidades, olhei todos os dias este espelho, sem ao menos me pentear direito.
Vieram os barrancos e sobre mim desabaram, sem me deixar carregar uma folha qualquer.
Sim, tive medos.
Outro dia, tinha um homem no portão a pedir água. Um copo.
Uma água, que eu nem sei se continua a pingar da torneira.
Esse mesmo moço retornou. Queria limpar o jardim.
- Ah, meu jardim está sujo! Limpe! Limpe!
Quero vê-lo todas as manhãs e tardes, e todas as flores
estarão no espelho da varanda.
Não farei coro com a velha ladainha escrita nas liturgias
que rondam minha biografia.
Eu, que preparo poucas coisas boas, além de um bom café.
Sem assombramentos, deixo o espelho lá, onde precisa estar.
Com fé, pode ser que alguma alma ainda possa ser gêmea.
regina vilarinhos- 2017

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Abrir o peito como se rompe a rocha,
brilhar nos olhos a cor da vida
deslizar na correnteza de amor
renovando a esperança de
acreditar!
Saudade é o tempo dizendo que ainda não passou.
Saudade é lábio molhado, com cheiro de beijo. É travesseiro amassado, chinelo trocado, camisa jogada. Saudade é xícara deixada no canto do quarto, amarelada e manchada...
Saudade é água gelada batendo na tendinite (dói!).
Saudade tem sonho interrompido, bolo embolorado na mesa, o vento entrando na casa,vazia.Tem a foto amarelada, o arquivo no pendrive, a setlist rodando na USB, em volume alto.
Saudade é download quebrado, é link com erro, é conexão discada caindo e caindo...
Saudade é um rio que nasce dentro do peito e deságua nos olhos.