segunda-feira, 31 de agosto de 2020

 As pessoas perderam a sensatez e se transformaram em personagens tontos, que vagam no espelho, nas ruas e numa tela de um aparelho qualquer. Mas o que é ser sensato? Quem é sensato?

Visto minhas roupas mais antigas na busca do meu cheiro em cada fibra de tecido. Acordar, café, ônibus, trabalho, almoço, casa da mãe, gatos e cachorra, plantas, poemas, buscas e respostas para tudo, faz pensar que o controle da nossa situação é todo nosso.
Tolice imaginar que exista um padrão para o nascer, viver, amar e morrer. Não tem!
Ninguém é o outro e todos estão tentando ser tudo ao mesmo tempo.
É preciso guardar a lembrança do abraço e do sorrir juntos, deitados na rede ou na relva, vendo a lua nascer, e não a foto mais curtida e o sorriso perfeito, postados com os filtros da mentira.
regina vilarinhos - 2014/2016

 

Este tempo que é um tempo
outro,
feito de silêncios entre a manhã
e o canto da coruja.
Sobras, rascunhos, ruínas e
lascas de madeira,
tudo o que se pode ser
outra
coisa.
Queimando no fogão à lenha,
na moldura dessa janela.
na parte de cada linha.
Outrem
era uma canção
da fuga,
do soneto, em forma,
com as garrafas de leite,
esperando na porta de casa.
No banco de madeira
eu espero,
suspiro,
aqueço,
faço a história se acumular
na fumaça que sobe,
nas carnes defumando.
agosto de 2020
A vida me pede poesia.
O cheiro da horta
noutra
terra,
serra,
montanha.
Sombras, folhas,
visão.
Eu quero um campo,
uma casa
e tudo mais.
2020

Um vislumbre e um poder. Uma ferramenta.

Companhia maravilhosa que se faz no meio do quintal.
Doce que brilha na vitrine, salivo e dispara o coração.
PA-LA-VRA.
Canção, poema, romance, manifesto, credencial, partitura, pinceladas no vento, batuque e caminho.
Clarão na alma e guia.
E dela é feita a não palavra.
O Nonada é a vida contemporânea. Esse deserto íntimo que teimamos em compartilhar.
A essência do eu nas cinzas adormecidas.
As coisas a serem feitas, perdidas no emaranhado de luz que brota na cabeça.
Deve ser porque persisto no caminho de crer na palavra
e na forma que ela toma, quando vira ação.
Nada é mais difícil do ser/tornar-se resistência, hoje.
Em frente ao espelho, de frente pro sol, mirando no olho do filho. Percorrer o infinito caminho da modernidade líquida.
E não esqueço jamais do Bourbon que me fez companhia.
Vive-se e goza-se. Perdoe-se e puna.
2020 - janeiro.

 

Terra batida. Cachorro e cavalo no pasto. Casa branca na estrada. Sol quente, vento quente. Podia voltar a fazer frio. Ai! doía o pé e uma perna. Doía a fome. O cachorro pulava sem parar diante de um buraco. Tatu.

Árvore, sombra, uma goiaba. Senta.

Parou um carro. “Vai pra roça?” - Sim, tô quase lá. “Vem. Te deixo. Sobe.” Sacudiu mais 2 quilômetros. – Brigada, Zé. Bateu na carroceria. Zé foi, com sua Ford, virou na curva e sumiu. Ali, no milharal, tudo some. Cadê cachorro? Cadê enxada?

Milho, milho, milho.

Todo seco, nada vinga nessa terra seca. Meu Deus! Só isso. Ninguém tinha milho bom. Juca, D. Edna, Tavinho, até a rocinha do alemão tava seca. Coitado, saiu da Europa pra passar fome no meio de Minas.

 

Vi um dia o alemão correndo no meio do milharal. “Was für eine Scheiße!” Devia ta achando tudo uma merda só.

O milho, ele tem uma coisa com água. Deve ter plantado muito tarde, o alemão não sabia de nada.

O Tavinho inda fez certo. Mas largou as coisas de lado. Coração partido estraga o homem e a lavoura.

Milho e sol quente, desde pequena eu vejo isso.

Eu tinha medo do pai, quando chegava suado, vindo do milharal e resmungando com a seca. “Só palha! Só sol!”, eu sentia a raiva no meio dos dentes dele. Mãe nem reagia. Um banco seco, uma caneca torta, um naco de bolo (de milho). “Dêxa seu pai, menina.”

Nada de correr na cozinha. Essa hora era de correr com as galinhas, secas, magras, no canto de uma terra seca.

Conta a vó que pai era só isso. Sempre correndo o milharal e secando o suor.

 

O alemão chegou uns dois anos. Eita que é bonito! Eu nunca vi igual assim. Mãe diz que é moço de família, “Nem tem olho para menina como tu”. “Menina, mãe? Tenho 28!”

 

Uns 7 anos que eu tinha. Peguei um trem no corpo que mãe achou que ia morrer. Ninguém sabia; só tinha dor, vontade de chorar e não comia. Vó disse que eu tinha aguado.

Pai não me via, não entrava no quarto. Mãe chorava na cozinha e no terreiro, fazendo as galinhas correrem e o arroz queimar.

Veio padre de perto e de longe. Veio pastor, e veio a benzedeira. Dona Vera, ela que me rezou dia e noite durante uma semana.

Uma tarde, Seu Geraldo parou pro café e tirou das tranqueiras um chocolate. Mãe pegou e comi escondido.

Deus, dizem, é milagreiro. E tô aqui, no meio dessa roça. Nesse sol. O chocolate salva e hoje eu queria um, salvar essa raiva.

 

28 anos. Sei ler e fazer comida. Escrever para que? Sei plantar o milho, é o que tem. Ando uns caminhos todos os dias. Só. Outro dia, o pai disse que a gente tinha que ir pegar documento no banco, na cidade. Foi a última vez que fui lá, tem quase 5 mês.

Depois do banco, pedi pro pai pra cortar o cabelo. Tava igual o milho. Seco, amarelo. Tava a igual palha. Pai deixou. A moça pediu pra esperar, olhava para outra moça e ria. Ria, ria. As duas. Duas moças secas. Arranquei o pano do pescoço e levantei.

Em casa, mãe pegou a tesoura e cortou. Diacho de gente que ria. Sol quente e duas magrelas rindo.

 

O Zé trouxe o caminhão e parou pertinho de casa. Tava carregando a mudança do alemão. Ia embora, vendeu terra. Olhei a carroceria. Tinha pouca coisa. Mas tinha livro. Eu sei o que é livro, lá na escola tinha e a professora deixava pegar. Sei porque consegui ler duas capas que tavam junto com outros que não consegui ler o que eram. Deve ser na língua dele. “Tenho que levar tudo isso inté na cidade, que lá vai colocar em outro caminhão. Deu 100 conto pra mim. Tá bom.”

“Zé, me deixa ficar com esses aqui?” “Tá doida, Juventina? O alemão briga comigo.” “Ele nem vai sentir falta, Zé. Cê diz que caiu na estrada...”

Um de capa amarela, capa velha. “Drá-cu-la”. O outro eu só vi que tava escrito ”Guia de Minas” e tinha muita fotografia. E foi o Zé com o caminhão. Eu fiquei mexendo no livro de fotos e pai veio me tomar. Puxei pro lado. “Tá na hora de ajudá tua mãe. Depois ocê vê esse trem.”

 

Sol e milho, duas cestas cheias e a gente limpando outra. A mãe de boca seca e de olho em nada. Peguei água. Ela bebeu. Resmungou. Caiu o cesto no chão, espalhando o milho.

“Disgrama de cesta. Disgrama de vida. Disgrama de milho.”


agosto 2020

quarta-feira, 3 de abril de 2019

A minha cidade tem um nome que veio do rio e a gente não pode nem nadar nele. Ela tem vila com nome de santo e bairros com nomes de frutas, mas não tem mais tradição religiosa e nem de dia de colheita. Minha cidade já foi inundada de poetas e artistas, nos bares e ruas, nas galerias e salões. Hoje, vive uma angústia aflita, a rua vazia de palhaços, o verso escondido em corações. A cidade dos meus dias, tem um jeito diferente, não é de mar nem de montanha. É uma cidade do interior, da volta no tempo. Que em meu caminhar faz um encontro diferente todos os dias, entre o sol, o concreto e a árvore da vida.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Pecado é permitir o pecado

Pecado é permitir o pecado.
Quando era menina, aprendi que era pecado jogar comida fora, que era pecado não amar o próximo, era pecado roubar, e tantos outros pecados que aprendemos. A gula, a luxúria, a avareza, a inveja... A palavra pecado sempre carregada na consciência enquanto ia crescendo. O erro se afirmando em meu subconsciente, que não sabia o que era O certo. Quando aprendi outras ideias, não importa a idade, que me trouxeram outra visão dos valores e as tantas significâncias dentro deles, pude ir manejando meu vocabulário e consegui enxergar formas mais leves, não desfazendo o aprendizado anterior. Então, o PECADO passou a ser no meu entendimento, quebra de energia.
Explico: a gula é pecado e é pecado desperdiçar comida. Então, o alimento, que é energia vital, é força, é amor, é prazer de saborear, é necessário para os outros tantos ciclos que vivo, não pode ter sua ENERGIA quebrada, porque ela não se transforma no que deve se transformar (a força etc etc). Claro, que ainda entra o debate sobre veganismo e outras questões, mas não quero e nem tenho conhecimento (ainda) para me aprofundar nele. Não posso prosperar em outros sentidos de minha vida, se quebro a energia primordial, do alimento. E assim, vou colocando essa ideia em outros conceitos: a avareza é energia errada com o meu dinheiro, meu suor, trabalho, aprendizado; o desperdício também. A preguiça, idem. A luxúria, por sua vez, quebra a força da vida, do prazer amoroso, do sexo realizador, que não é apenas procriar, mas que é pró criatividade, inspiração.
Permito ou não, consciente ou não, que essas energias sigam seus ciclos. Preciso aprender a controlar e fazer de cada uma um bem para mim mesma. Abrir os caminhos de aprender é tirar o pecado da preguiça de meu caminho.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

NOVELÃO

Tenho os caminhos das mãos da vida prontos
a serem deitados sobre teu corpo.
Quem foi o dono do tempo
que fingiu não tê-los?
Tenho os beijos de tantos lábios guardados
para despejá-los todos em tua boca.
Quem é o dono do amor que diz o quando e onde poderão ser dados?
Guarda hoje uma doce lembrança
e deixe a roda do mundo continuar.
Minha cena e a tua estão escritas nos papiros sagrados
e a última cortina ainda não caiu sobre este palco.
Tenho mais de mim além do roteiro,
tens mais de ti depois do diretor.
Um patrocinador? Um creme para mãos?
Ou uma venda casada do cruzeiro ao som de Robertão?
Ninguém vai lembrar de nós,
nem os tabus, nem as beatas em casa rezando seus terços.
Ave, crendeuspai, logo em seguida vem o grande irmão que te vigia!
regina vilarinhos - 31/01/2014

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Da solidão de muitos dias

Existe uma solidão dentro de cada um de nós, escondida. Até que uma palavra, ou um silêncio, e ela se mostra. Imensa, na sua força. Pequena, no seu quarto. E cheia de insônias, de fotografias, de doces e contos de fadas.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Oxum

Ela me olhou, de olhar de mãe, 
fez da minha mão buquê de flores.
Ela me deu a mão, pôs em mim proteção.
Das águas da cachoeira, lavou meu rosto.
E o medo correu junto com o rio.
Brota luz em meus caminhos,
toma o vento e a tempestade.
A palavra não pode naufragar. Dela preciso para me entender, para entender os outros e para que eu me sinta pertencida no mundo. Falada, escrita, traduzida em sinais, em prosa ou em verso. Dela me alimento, me junto, me despedaço, mas com ela eu ando. Fazer dela - palavra - uma ferramenta de luta e união, não de transtorno, indefinições. Uso a palavra para entender, não para desestimular.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sobre apego e prisão

Meu território é minha casa. Não aquela construída em cimento, telhado, janelas, cozinha e onde posso abrigar meus afetos.
É a casa que mora dentro de mim, que abriga meus sonhos, meus sabores, que eu levo para qualquer lugar. Nova ou velha, sempre mirando o horizonte.
Abro meus braços para este território se demarcar com outros braços! Fecho as janelas quando vem a tempestade e posso abri-las também para que o vento desmanche o cabelo e desembarace os nós!
Só põe o pé nesta casa e penetra este território os que se colocam em sintonia.
E são livres. Não existe prisão na minha morada!
Será que não dá certo?


2016