terça-feira, 13 de janeiro de 2015

PROMESSAS DIFÍCEIS

PROMESSAS DIFÍCEIS

Ser o Fernando nosso de cada dia
junto com o Vinícius,
e Cora e Cecília.
Tentar a poesia e o verso,
amar o infinito momento e
desejar a vida imensamente.
Inventar as pessoas dentro
e por fora, ser um só.
Para ser inteira.
Ou simplesmente ser.

Devagar. Depressa. Aos solavancos.

E mais, muito mais, nem tão
Quintanamente baixinho.
Passarinhamente como Manoel.
Ardendo como Camões.
E amar descontroladamente
como Chacal.


regina vilarinhos

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

PROCURA-SE


Estou à procura de imóvel para alugar, de preferência casa.
Não preciso de garagem (ainda); mas quero um jardim, sempre. Quero varanda com paredes brancas onde a rede vai morar e onde os vaga-lumes virão brilhar. Muitas almofadas, um cantinho de café e um banquinho para violar.
Na sala deverá caber uma estante e muitos livros, um sofá, um abajur... e um cantinho para a Bibi, a gata. Também cantos certos para os cantos de samba.
Um dos quartos (sim, quero dois!) para mais livros, uma cama para hóspedes imprevistos e janelas para cortinas coloridas, cheias de borboletas ou estrelas.
Uma cozinha para misturar temperos e cheiros, com capacidade de ter uma mesa para a família, para os amigos do bolinho de chuva, da cerveja gelada e da poesia cantada. Onde se coloque o filtro de água, a geladeira e o fogão, com panelas sempre luminosas e cheias de amor para alimentar.
O outro quarto, ah!, este é para meus sonhos, para meus cheiros, para meus segredos, para a cama grande e para o guarda-roupas, e para o espelho. Sim, espelho não pode faltar, para mirar ali mesmo a mulher que me cuida todos os dias. Uma mesinha com mais livros, o porta retratos, os chinelos no chão, umas roupas espalhadas, a janela para o jardim, e o sol sereno do amanhecer.
No banheiro, o chuveiro e muita, muita água! Um nicho de misturinhas femininas, um pote com escovas de dentes (duas?), o porta toalhas de flor, as suculentas no parapeito da janela, os banhos sem pudor.
Se quintal tiver, é lá que vão me achar. No meio da horta, no meio dos varais, no meio das orquídeas... regando, semeando, colhendo. E se o espaço for coberto, tão logo se julgue correto, um chão para um neto.
A casa é um sonho, eu sei. A vida dentro dela tem que ser real, mas pode conter o sonho também. O que importa é que ela proteja, guarde, acolha, compartilhe, respire paz.
regina vilarinhos - 2014

domingo, 31 de agosto de 2014

Amor

Explode o tempo
com suas tontas voltas.
Sonhos de muitos dias,
abraços espalhados
e sorrisos juntos,
sempre colados.
 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

CLARICEANDO

De corpo, mente e de sede inundada, mergulhou fundo na metade dela que ainda estava respirando. E sentiu a imensa vontade de estar em qualquer lugar melhor do que estar ali, junto da sua metade que não mais respirava.
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Algumas coisas nos cansam, algumas pessoas nos encantam, algumas leituras nos desligam e algumas taças nos anestesiam.
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Renovar a vida não só porque é o ciclo. Alguns ciclos eu não quero repetir.
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Fato é que o mundo gira demais e as vertigens derrubam.
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A solidão é a vida precisando tomar rumo, como um cão sozinho na linha do trem. Onde ele vai e de onde ele vem e por quê ele continua caminhando?


regina vilarinhos - 2014

terça-feira, 24 de junho de 2014

São João


Aproximava-se sempre devagar da fogueira. Sentia o calor no rosto e ia para trás de novo. Tinha medo dos olhos arderem com a fumaça, tinha medo de correr em volta do fogo, como as outras crianças. Os estalos da madeira pareciam seu coração festejando o São João.
Sentia uma alegria interna quando via o calendário mudar o mês e o colégio se enfeitar todo de bandeirinhas coloridas. Os ensaios da quadrilha eram para encher o coração de esperanças, porque ele a tirava como par, todos os anos.
Lindo, moreno, simpático e inteligente. Ela amava Ben-Hur. Podia ter nome mais lindo? Ela se achava feia, chata, sem graça. Mas dançava a quadrilha melhor que ninguém e ele gostava disso.
O dia da Festa de São João chegava. Eles dançavam, riam, comiam doces mil... Era a melhor noite do ano para ela.
Quando ia para casa, via as estrelas perdidas no céu. O frio e o vento estavam sempre juntos de seu rosto. Mas olhava assim mesmo, lá para o alto, e entortava a cabeça. Guardava o vestido caipira, esperando o próximo ano, a próxima dança. Torcendo para Ben-Hur estar sempre ali.
Um dia, ele partiu para outra cidade e os dois nunca mais rodaram o anarriê de São João.
Ficou a música dos balões subindo e enchendo o céu de luzes coloridas.
regina vilarinhos - 2014

domingo, 22 de junho de 2014

Vinha de um sonho feito de pequenas felicidades. Pegava os ventos pelas mãos, colhia pingos de chuva na ponta da língua, deitava os cabelos sobre as nuvens. Certa vez, voou sobre as colinas, apenas para brindar um raio de sol com os pássaros. Sentava-se à beira dos abismos para soprar os dentes-de-leão e vê-los cair no vale. 
Partiu para o alto e levou as pequenas felicidades que lhe deram pelo caminho. 
Não tinha medos. Só tinha o mundo. E ele girava em todos os cantos, dançando junto com os cavalos e peixes.
regina vilarinhos - 2014
Espalhei-me pela Terra,
fiz caminhos de Lua
para me perseguirem.
Os que não me alcançam são 
os tolos, estes que esperam
pela máquina do mundo, 
em estradas e ilhas
perdidas no meio do nada
dentro deles mesmos.
E ficam aí, em devaneios,
na espiral de seus egos.

regina vilarinhos - 2014

sábado, 24 de maio de 2014

Prova

Prova
Tenho um cão que nunca brincou comigo e
tenho um livro que nunca li.
Tenho doces presos nos armários.
Tenho uma panela velha que está
sem tampa e nunca a usei.
Ainda resta um carnê das casas cem,
contando as parcelas do sonho engavetado.
Divido um copo de vinho com a mulher no espelho,
que ri desesperada de mim.
Aqueles que sorriem comigo no porta-retratos
ainda ouvem tangos na radiola.
Resta um sol no papel que nunca
esteve na janela em um dia cinza.
Permanece a vida na busca rigorosa dos esquecidos
comprovantes de que ela foi útil.
Regina Vilarinhos - 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Encontros e navegação

Minha grande cidade do interior permite que se caminhe e se encontre. Ainda.
Nesta cidade, de tamanhos variados e de saudades escondidas nas esquinas, nos becos, nos elevadores e nas salas de espera dos consultórios, é que os encontros sempre se fizeram.
Encontros são o mote da vida.
São os amigos, os filhos dos amigos e aqueles outros amigos e seus filhos, que andaram por tantos lugares e, volta e meia, estão de novo à nossa frente.
Algumas vezes me parece que o que deu nó não foi a gente, foi o tempo. E estamos aqui nos encontrando e desatando um por um, a cada reencontro.
O longe é aquele lugar que não chegamos e o mapa de viagem me foi dado há pouco tempo. Eu, que não sabia ler mapas, estive usando bússolas erradas, deixei o navio à deriva em mar bravo. Retornei ao cais e reencontrei meu leme.
Um canto de sereia ainda teima em soar bem próximo.
É uma chance de navegar.
Mas ainda estou em terra firme, porque existe um encontro que ainda não aconteceu.
Eu espero, porque tenho a alma de poeta fingidor e não é minha esta dor de deixar o barco seguir sozinho.



regina vilarinhos